Pages

Colaboradores

sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014

Luis Fernandes: 'Não há como fazer uma Copa sem participação do poder público'

Luis Fernandes, secretário-executivo do Ministério do Esporte, é o homem do governo federal na organização da Copa do Mundo. A Fifa credita a Fernandes o desfecho positivo da crise que quase riscou Curitiba do mapa do Mundial. Na entrevista a seguir, concedida no Costão do Santinho, em Florianópolis, o número 2 do ministério do Esporte explica o papel do governo federal, fala sobre os erros na Copa das Confederações e afirma que Curitiba correu, sim, muito risco de ser eliminada do torneio.

A menos de quatro meses da Copa, que avaliação o sr. faz do quadro geral?
Estamos na fase final de preparação, é o momento de transição da conclusão dos palcos principais, que são os estádios, para a consolidação e execução dos planos operacionais. Ver como cada cidade vai funcionar durante a Copa. É o momento em que estamos. 

Quais são as principais preocupações agora?
A principal preocupação são os dois palcos que atrasaram. O Corinthians estava muito bem, mas teve aquele infeliz acidente na última peça. Não pode mais haver qualquer desatenção na conclusão do estádio.  Esse é um ponto de preocupação, porque se houver erro não dá mais tempo para corrigir. A outra preocupação é Curitiba. Um mês atrás, o quadro era de exclusão. Era uma possibilidade efetiva, e exigiu de nós uma intervenção para mudar o rumo do que estava acontecendo. Felizmente houve sucesso nessa intervenção. O desafio agora é manter o ritmo até o final. O cronograma está muito apertado. 

Algo vai ficar aquém do que havia sido planejado lá atrás?
Como gestor público responsável, a gente sempre quer que seja mais, que seja ideal. Tendo essa referência, é importante para não esmorecer no controle, no monitoramento. É cedo para dizer. Há lições que podem nos ajudar na Olimpíada. Aprendemos muito com os problemas da Copa das Confederações.

Por exemplo?
Tem coisas de atendimento ao torcedor. O serviço de alimentação na Copa das Confederações foi muito precário. É claro que isso não é responsabilidade nossa, do ponto de vista da execução, mas sim do controle e da cobrança. A própria Fifa reconheceu que estava aquém do necessário. Na área de segurança, houve problemas de coordenação entre o âmbito externo, que é de responsabilidade do poder público, com âmbito interno, que é privada e de responsabilidade do COL e da Fifa. Isso foi identificado, estamos tomando as medidas de correção. Outra área importante foi a questão da distribuição de ingressos. Porque eram poucos locais, que acabaram sobrecarregados, e então vimos que aquele sistema não era adequado. A partir da experiência da Copa das Confederações foram implementadas várias melhorias.

Valcke afirmou que, se não fosse o governo federal, Curitiba estaria fora da Copa há muito tempo. Qual foi o papel do governo federal na prática?
Não somos responsáveis pela execução da obra do estádio. Nosso papel é de coordenação entre os entes públicos e privados envolvidos. Parte dessa função é de acompanhamento das obras. E nosso monitoramento nos alertava para a existência de problemas. A Fifa e o COL também tem seu sistema. Nosso monitoramento batia com o da Fifa, vendo que o problema se tornava grave. Chamamos o clube, a prefeitura, o governo do estado em dezembro após o sorteio no Sauípe. E um mês depois, não houve avanço. A situação já era emergencial em dezembro, e não avançou em janeiro. Tudo apontava para a não conclusão da obra a tempo, com qualidade. Havia um impasse entre os atores.

Sobre o financiamento?
Não só. De gestão e de financiamento. Sobretudo de gestão.

Qual era o problema?
O Atlético-PR adotou um modelo diferente das outras 11 sedes. Primeiro, ele pulverizou as obras, em vez de ter um integrador tocando a obra. Ele não dispunha de um empresa forte cumprindo o papel de integrador com a capacidade de fluxo de caixa para cobrir um eventual atraso. As outras obras, quando tiveram algum atraso, a integradora garantiu o fluxo de caixa, e depois era resposto. Ele não tinha. Os dois problemas, de gestão e de financiamento, tem a mesma origem, que é o modelo que foi escolhido. Nós mudamos o modelo de gestão. Foi composto um comitê com a participação direta do governo e da prefeitura, sobretudo na tomada de decisões, de onde alocar os recursos. Foi um conjunto de medidas que tornou mais efetivo o controle da obra. Qualquer relaxamento disso…

Tem como tirar uma sede da Copa ainda? 
Se o estádio não ficar pronto, não há como ter jogo no estádio. Por isso temos que garantir que o estádio fique pronto. Por isso temos que acompanhar, ser muito efetivo. 

Qual havia sido a solução?
A decisão não é nossa, é da Fifa, então não quero dizer. Eles tinham um plano B, mas como o plano não era nosso, eu prefiro não comentar. Eles tinham alternativa.

O governo federal só passou a fazer parte do COL em 2012. Por que não antes?
Eu diria o seguinte: na minha avaliação, foi um erro não ter entrado antes no COL. Não há como fazer um evento, não só no Brasil, como em qualquer país do mundo, sem a presença do poder público. Porque os planos operacionais, segurança, transporte público, energia, serviço de saúde, tudo depende de poderes públicos. Qualquer evento desse tem forte participação pública. Eu acho que depois da entrada do governo no COL [em 2012], houve um salto de qualidade no processo de organização e no diálogo da própria Fifa. A própria Fifa se sentiu muito mais segura. Passou a ter um interlocutor que coordenava o conjunto das ações. As coisas se encaixaram. Eu acredito seriamente que se não tivessem se encaixado, teríamos uma situação muito mais adversa.

Risco de não ter copa, por exemplo?
Não, isso é difícil dizer. Mas [teríamos] mais problemas. E problemas como esse de Curitiba, talvez nós não tivéssemos conseguido resolver sem essa relação de confiança estabelecida. Temos que produzir uma convergência. Em Curitiba havia um impasse, e nós resolvemos o impasse.

Em 2007, quando o Brasil foi escolhido sede do Mundial, Ricardo Teixeira escreveu um artigo na Folha de S.Paulo no qual afirmava que esta seria "a Copa da iniciativa privada". O que mudou?
A Fifa não interferiu na composição do COL. Eu não sei como foi lá atrás, porque não estava na função em que estou hoje. Mas a Fifa acolheu de muito bom grado a entrada do governo quando essa decisão foi tomada. Eu sei que era um discurso do então presidente da CBF. Mas ao mesmo tempo em que ele falava que a Copa era um evento privado, eram assinados os Host City Agreement, os Stadium Agreements, comprometendo o poder público com garantias e obrigações da Copa. Esse discurso nunca correspondeu a realidade. Estava sendo operado desde o início a participação do poder público, o que é necessário.

Quem vai pagar pelas estruturas provisórias? Porto Alegre também teve um impasse recentemente. 
As estruturas temporárias compõem os compromissos estabelecidos no Stadium Agreement. Nos nove estádios públicos, o documento já comprometeu de imediato os governos. E houve uma discussão, e nós ajudamos muito, a baixar os valores cobrados inicialmente.

Como?
Com discussão com os fornecedores, com as integradoras, nós discutimos firmemente com a Fifa e o COL para reduzir especificações. E nós conseguimos. Em um caso, o preço final ficou um quarto do que estava previsto.

Tem um caso específico para apontar?
No caso de Recife, reduziu para um quarto. Recebemos uma carta no fim de dezembro [de 2012], nos mostrando os valores, que nós consideramos inaceitáveis - era um terço do preço do estádio. E fizemos toda uma ação. Chamamos fornecedores, integradora, governo do estado e reduzimos bastante. O problema que surgiu agora para a Copa do Mundo, que exigiu mais trabalho de coordenação, é que nos três que são privados, isso recaiu sobre os clubes, que são os proprietários. E para os clubes, não só do Brasil, mas para qualquer clube do mundo, seria difícil de arcar. Então isso exigiu uma composição para viabilizar as estruturas temporárias para a realização da Copa. E em todos eles houve uma composição com governo estadual e prefeituras. 

O Campeonato Brasileiro de 2013 terminou nos tribunais, a transferência do principal jogador brasileiro para a Europa virou caso de polícia e os casos de violência relacionados a futebol aumentaram muito. O sr. se preocupa com a imagem do futebol brasileiro?
Não sei se é a imagem do futebol brasileiro. No caso do Neymar, me parece que os problemas estão na Espanha. É a imagem do presidente do que talvez seja o maior clube do mundo. Não acho que seja especificamente uma coisa com a imagem do Brasil. E achei lamentável que o Brasileiro tenha terminado no tribunal. Não tenho opinião sobre isso, só acho que é lamentável.

0 comentários:

Postar um comentário